1.08.2012

Cats living on the Roof


Rabisco, sentado no velho banco de madeira apodrecia do jardim nada mais que pequenas palavras soltadas, levadas pelo vento invernal que me acaricia o rosto com um toque tão gélido e áspero quanto meigo e macio. Rabisco sem pensar onde estarão os pássaros que se abrigavam entre as ramas das árvores, agora despidas e adormecidas. Talvez o vento também os tenha levado, como num empurrão que falta na minha vida para me indicar o caminho certo. Como um mero puxão brusco, que me faria cambalear e tropeçar nos próprios pés descalços sobre o soalho de madeira e me arrastar para longe de toda a melancolia matinal que se respira no quarto diariamente, sempre que regresso do que por momentos parece ser tão real e doce como um pedaço de magia solta que se abafa debaixo do travesseiro para que as garras da noite não a devorem como um inocente bicho que balança encantando sobre o calor do candeeiro da rua.
Sinto novamente o vento do Inverno bater-me levemente, em pancadinhas de amor correspondidas por suspiros quentes e profundos que se evaporam no ar pesado da cidade. A pressão da velocidade a que regressa e parte, deixa-me nervoso, como se uma ânsia maior crescesse ferozmente dentro de mim, hiperactiva por correr descalça sobre o orvalho que silenciosamente se instala a meu lado, como um velho amigo que precisei ter e não tive, em silêncio enquanto contempla e compreende cada um dos meus soluços impulsivos e lágrimas feridas, que se arrancam de mim como se uma faca me cravasse os ossos e os desse de alimento aos satânicos leões que me derrubam. 

1.04.2012

Insanely demented


Eu estava sentado na minha cama, olhando as paredes do meu quarto que reflectiam os anos em que eu vivi entre elas, dando a conhecer nostalgicamente os mais relevantes episódios que como as folhas do Outono, se perdem na minha mente, aguardando que o vento as varra para bem longe de mim. Quando coloquei minha mão esquerda sobre minha cabeça; Foi nesse momento em que eu vi que eu estava a perder pedaços da minha cabeça. Como um puzzle para amadores, a desmontar-se aos poucos.
Mergulhei a mente contra os meus dedos, e segurando firmemente os fios de cabelo fino e escuro, encontrei o que parecia ser parte de uma charada apagada; de uma incógnita destruída.
Os meus ouvidos tremeram com o som do relógio. Os meus olhos arregalaram-se bruscamente e a minha boca abriu-se num grito de desespero mudo que ninguém compreendeu.
Perdi-me no labirinto sem saída, onde o céu parece ser branco e espesso, sem vida. Respirei fundo umas três vezes, que para mim pareceu fogo venenoso sobre os pulmões fraquejados. Decapitei-me sobre os meus olhos cegos, que tudo vêm mas tudo ignoram. O roliço do sangue palpitante contra a pele acordou-me a dor sequiosa que havia esquecido. Esse zig-zag de ideias mortais que me embala nos seus braços, enquanto o mar se evapora e os meus dedos se desfazem.
Pequenos anjos vestidos de negro cantam em minha volta, as mais cruéis e doces verdades que pode haver para descobrir numa tão louca e comum vida com poucos salpicos de cor de rosa. Declaro guerra ao cinzento, que ainda aqui está, calmo e forte como sempre esteve ao longo dos últimos tempos em que a chuva não apareceu à janela para me acordar do transe em que me encontro completamente perdido, em busca de respostas que não quero e de oportunidades que desperdiço. 
Seguro a faca contra mim. O cinzento parece seguro que venceu a guerra, e é nessas réstias de luz tão artificial que me confronto se as respostas todas não estariam a nada mais que poucos centímetros entre a pele e a lamina brilhante que reflecte a minha expressão pouco sóbria e profundamente aterrada. 

1.02.2012

Icy January


Espalhei sobre a cama um álbum aberto de fotografias sem vida. Fotografias que eu não recordo, que eu não lembro de ter vivido. A agonia que me cerca e me prende, aperta-me mais agora, como uma cobra estranguladora que me procura matar sem piedade.
Sinto o peso de respirar. O meu nariz reconhece o mofo de um passado rico em sonhos e esperanças, apagados e manchados pelo tempo que cruelmente prega partidas às mais ingénuas cabeças que sempre sonham alto e acabam caindo de grandes alturas.
Revivo por segundos os momentos que espelham o meu outro eu. O eu que sorria com vontade e que hoje já não pode; já não consegue, já não sabe. As coisas tomaram novos rumos e nada do que era hoje é. As coisas mudaram drasticamente, como se tantos anos quantos a mente conseguisse esquecer, estivessem passado em branco, desde aqueles dias de sol em que eu brincava, ria e corria livremente sem preocupações algumas, como um pássaro fora da gaiola por poucas horas. 
Carrego bilhas de água partidas nos olhos, águas turvas que me lavam a pele e me escorrem pelo queixo. Confronto-me a mim mesmo. Questiono esse maldito veneno que me escorre dum olhar apagado, como um ácido que me desfigura o rosto e me corrói a mente.
Num impulso, pego nelas. Agora marcadas pelos meus dedos. Os vestígios que eu não procuro apagar.
Arrumo-as num monte e novamente o cinzento do cobertor se adivinha, entre as folhas caídas de um Outono que há muito foi varrido pelo vento. 

Dreaming of rainy days


O doce odor da chuva acorda os sentidos adormecidos entre os cobertores de sonhos apagados e fechados. É esta nostalgia que me faz sentir acordado, embora uma boa parte de mim se queira ver livre dela a qualquer custo, e continuar de cabeça erguida como um soldado que venceu a guerra. Sinto o vazio da espada e do escudo nas minhas mãos. Armas que me defenderiam e me ajudariam a vencer um dia, neste guerra de corpo-a-corpo, onde somente os mais corajosos conseguem sobreviver entre o leito de sangue derramado. 
Vivo uma nova página desse capítulo sem fim, onde a cada letra uma nova decepção se ergue, como as torres dum mosteiro onde no eco do seu vazio, as vozes se perdem e se encontram como fantasmas do passado que dançam entre os claustros gélidos salpicados de neve do Inverno que me habita. 
Pássaros negros esvoaçam sobre mim, esperando ansiosamente a minha queda para se alimentarem do que resta dos destroços de uma alma fragilizada, solitária nesse deserto de emoções sentidas.
Olho à volta; a minha fiel companheira ainda aqui está. Oh, doce solidão que me aqueces.
Envolvo-me no casulo da minha alma enquanto faço a crisálida e aguardo que, quem sabe um dia, a metamorfose chegue, antes desses malditos pássaros necrófagos terem bicado o que sobrava de uma pequena e insignificante esperança adormecida que como vermes se esconde debaixo das pedras e me deixa, assim, seguindo a rota do vento do deserto de areia escura onde a cada passada, um pouco mais de mim se enterra e se perde, sem ninguém dar conta e sem deixar saudade. 

1.01.2012

Sea of ashes


Eu vejo a vida a afogar pessoas inocentes a todo instante. Inundando a sua alma com ondas frias e salgadas. Ensopando os seus corpos, consumindo seus dias, roendo os seus ossos. É tão fácil e simples, encontrar e perder pessoas no mesmo instante quando não se está na mesma e maldita sintonia. É tão fácil encontrar pessoas que não te compreendam, pelo simples fato de não compreenderem elas mesmas. Na verdade, acredito que quase todas as pessoas do mundo não se entendem e estão em constante conflito com as almas penadas que lhe crava as unhas nos seus interiores apoderando-se do que sobrava de uma tentativa de vida razoavelmente boa.
Buscam, caminham... Sempre naquela linha que todos criamos na nossa cabeça.
Sem vida, sem escolha. Somente erguidos pela dor de um corpo cinzento onde os pássaros voam livremente nos olhos do céu escurecido pelos tempos difíceis que se adivinham.
Seria tão mais fácil se tudo fosse como pintar um quadro abstracto onde poderia despejar latas de tintas de todas as cores contra a vida de quem precisa; contra a minha vida. Seria bom no fundo, saber que qualquer mera mancha colorida não será lavada e deslavada pela água da chuva até, novamente tudo se tornar cinzento, na minha e nas outras tentativas de vidas.  

12.28.2011

Time to spare


Os dias passam como o bater das asas de uma borboleta que fica por horas parada, como se nada mais importasse. E algo importa? O novo ano galopa na minha direcção, como um cavaleiro sedento de sangue, apontando contra o meu peito a mais afiada lança.
Varro para baixo do tapete a sujeira de um ano rico em desilusões o mais rápido que posso. Escondo de todos, mas principalmente de mim, aquilo que quero manter abafado pelo pó até que os bichos o comam. Preciso de recomeçar. Sinto isso, mas não sei como.
Sacudo na janela cúmplice, o pano com que limpei as lágrimas que me romperam o rosto.
Vontade não me falta para num impulso lhe pegar fogo, mas algo dentro de mim me diz que futuramente precisarei novamente dele, e nessa altura, quem mais apararia as minhas lágrimas?
Nas gavetas lotadas de planos e objectivos por realizar, reencontro mais uma vez, esfregado contra o meu rosto, uma memória idiota mas extremamente poderosa que me intimida.
Ouve-se o bater das asas da borboleta quebrar o silêncio. Passou-se um ano que um sonhador rabiscou na sua vida, o forte desejo de triunfar no amor e, passado um ano eu verifico que esse mesmo sonhador não resistiu a um coração partido, esmagado e espezinhado. 

12.25.2011

Come Back


Chegas-te tarde, trazendo contigo o Inverno. Respiro novos vento que me trazem esperança e me toca, como as pontas frias e macias dos teus dedos que percorrem o meu corpo despido de amor.
A vida passa-me entre as mãos, como areia do deserto, e nada acontece.
Sempre o mesmo vazio; a mesma ausência de respostas.
Tu partes. Eu fico. Novos ventos retomam como um ciclo vicioso.
Nada mais importa, tudo se apaga agora. Tudo menos as marcas pouco visíveis das feridas que ficaram para recordar, nos momentos melancólicos, que a solidão ainda habita dentro de mim, confortável, como um velho mendigo dentro da própria casa de destroços, que só ele sabe quantas vezes caiu e foi erguida. O silêncio quebrado pelo som dos teus lábios acorda os meus. Gretados, secos, mal estimados.
Parece que a lua se pintou de encarnado. Novamente, o mesmo truque do destino. A mesma réstia de esperança que eu sei que irei pagar tão caro, com o peso das lágrimas mas que agora não sou capaz de negar. Mais um alvo na teia de aranha que tece, como uma gueixa a tocar harpa.
Quem sou eu dentro desse circo de disfarces e fantasias? Somente aquele que ingénuo assiste e acredita nas mentiras tão pouco treinadas, encantando pelo brilho e pela cor, do que de forma menos óbvia parece um sonho tornado real.
Ouve-se uma porta. A janela bate. Tu voltas-te e estás ali, à minha frente com um pedido de desculpas estampado no rosto. Os braços abrem-se mais que sozinhos para te receber de volta. As malas da viagem de regresso caiem ao chão, silenciosas e discretas.
Ignorou-as simplesmente, fingindo não saber que estas serão as tuas companheiras daqui a tempo, quando novamente a janela se fechar e eu ficar, por ela a ver o vazio e despido Dezembro caminhar na rua, sozinho, por que mais uma vez, tu decidiste partir. 

12.17.2011

Winter Storms


Pinto a sangue as folhas de um diário sofrido. Não me convém conter as palavras por pena ou medo.
Embora as tempestades de Inverno ainda me atrapalhem, não as temo. Venero cada trovão como um grito que não dei. Um grito de fúria, pura fúria, contra o que podia ser diferente mas não é.
Segue-se um silêncio. Os pássaros escondem-se amedrontados. Um novo grito se aproxima.
Escuto cada um em silêncio, enquanto os pingos vermelhos caiam contra o chão, escorridos dos meus dedos. Por momento, desejo gritar, mas não o faço. Não agora, nem aqui.
Como dói o vento tentar mostrar os vultos da verdade a quem não vê, quando somente o meu paladar busca o doce sabor melancólico de quem precisa de um amor daquele que chega, apaixona, parte e magoa. Jogos de palavras se misturam com as nuvens solitárias que explodem no céu.
Lanço mais uma vez o dado viciado. Para meu azar, contra mim.
Um novo trovão; mais um grito de fúria que protesta na minha vez, quando as palavras se esconde por baixo da língua trémula, com medo de sair indesejadamente. Eu concordo.
Caminho na minha sentença, no tabuleiro do jogo sujo, em busca de uma oportunidade para ganhar de um modo justo e digno, o que sobraria da ganância e da tirania, de quem não olha a meios para atingir fins.

12.05.2011

Prisoner in City


Procuro os caminhos para casa, entre as ruas molhadas pela chuva. Parece que a escuridão me acompanha, entre as poucas estrelas apagadas que resistem a ficar para presenciar o final da história.
Conforto-me e respiro o quente do fumo das chaminés que me recordam o passado; doce passado.
Qualquer lembrança boa, além das tão cruas e reais que me imprimem marcas de tristeza no rosto pouco bonito. Ao vento dou pouco mais que suspiros abafados, que este rodopia rua fora e leva, para bem longe, quem sabe ao encontro de um outro alguém como eu, perdido num qualquer canto do mundo, desejando somente um pouco de felicidade oriunda.
Troco olhares com as poças de água da chuva onde se reflecte a minha imagem enquanto tento por nela o meu todo; preenche-la com a minha vida. Talvez sobre espaço, talvez não caiba tudo.
Possivelmente vejo mais do que queria ver, e menos do que pretendia.
Sinto-me agoniado, como se dentro do cubículo onde vivo, faltasse espaço.
Cansei-me de percorrer com a vista, as coisas que mil vezes vi… Nenhum novo rosto, nenhum novo sítio.
Como se vivesse dentro de um globo de neve empoeirado, onde tudo é estático e imóvel até que alguém se lembre de dar um grande abanão. 

11.28.2011

Between you and I


É durante o segredo da noite que me provocas, que com esse doce olhar me seduzes enquanto cantas aos meus ouvidos os versos que me prendem como cordas, aos lençóis que me envolvem.
Compões as canções dos meus sonhos, de te tocar de longe.
Como uma traça que circula na noite despida desejando o calor da lâmpada, a minha pele te aclama... Pede que atravesses esse elo distante que nos separa, que te cerca e te aprisiona... Esses olhos afogados em fogosa paixão que sorriem ao meu lado, mas não me permitem tocar-te.
Pois a tua boca boceja o meu gosto, que daqui salivo, olhando-te de perto bem longe.
Esses teus passos que me torturam, de toda a vez que longe vou, mais perto fico. E, não há nada tão bonito quanto o som daquele teu velho olhar, na sombra escura, que provoca o teu próprio riso.
E num passe, distorce... Esconde. Corre. E, quanto mais longe vais, mais perto ficas. Permaneces. No gosto do riso das canções que me reflectem, ao passo que minha pele crua, ainda espera a hora, do  teu doce toque, pois arde-me o peito em chamas, impaciente pelo momento em que entre o eu e o tu, não existirá qualquer barreira. 

11.21.2011

bad choices


Quase não se ouve o embate contra o chão frio e molhado. Salpicam-se as paredes de sangue escurecido, ainda quente e vivo, que escorre entre as falhas da tinta das paredes despidas, que silenciosamente escondem o que resta de uma tentativa de grito mudo; um último pedido de ajuda que ninguém atendeu.
Mais um que se perde. Desta vez ali, entre o escuro de uma noite de Novembro onde rua abaixo, a podridão se oculta nos becos escurecidos, como gatos vadios que do medo fogem, tentando sobreviver por mais um dia com o pouco oxigénio que ainda não lhes é cobrado.
Sente-se um aperto no peito, um calafrio na espinha mas ninguém nota; ninguém sente falta.
Nada se perde, nada se ganha. Tudo continua, com as mesmas cartas em cima da mesa, caminhando no caminho errado onde apodrecem aos poucos, até que o persistente coração decida por si mesmo desistir da luta e assumir a derrota contra o que poderia ser inicialmente uma brincadeira inocente e acabou alastrando-se como uma bala que sem hesitar atravessa um peito, deixando atrás de si um rasto vermelho no ar e nada mais que só um entre tantos, caído no chão, morto pelo arrependimento que tarde demais chegou. 

11.08.2011

Clouds of smoke on an empty head


Caio de joelhos no solo gélido e arenoso mais uma vez rendido aos fantasmas de um passado assombroso.
Abafa-se o pó de uma caminhada dolorosa enquanto carrego nos meus ombros a cruz do arrependimento, arrastada atrás de mim, como um condeno penoso pelo
que tento, a todo custo, apagar de mim.
Nada acontece. Linhas traçadas a tinta não são apagadas com borracha, e por mais que ensanguente as mãos de tanto esfregar, não são elas que pagarão pelos pecados macabros de uma cabeça pouco ajuíza.
Contorço-me no chão, como se um ritual de exorcismo estivesse a ter inicio.
Corroído pela dor, pelo sofrimento, pelo arrependimento e pela tristeza que vagueiam ora perdidas, ora achados, dentro de mim, alagando-me ao chão desamparado.
Cheira a miséria na rua despida. O cheiro de uma população, que tal como eu, avança desamparada no caminho errado, alguns de olhos vendados, outros bem sóbrios. O cheiro de um povo que desistiu da guerra.
Mas não é só o festejo de odores repugnantes ao meu nariz, e ao mesmo tempo tão familiares, que me asfixiam o peito e me apertam o estômago.
Prende-se-me a respiração, inundam-se-me os olhos. A minha boca fica seca. Sinto a leve transpiração escorregar na pele fria.
A típica tragédia grega repete-se, desta vez, com um novo protagonista.
Mais um, a seguir ao último, a cair na doce e cruel tentação. Como uma borboleta capturada nas severas e rígidas teias de uma aranha mortífera e sanguinária.
Abre-se a caixa de música e a melodia se espalha entre os vultos de cabeças vazias, petrificadas pelo que era para muitos uma saída, no entanto, dessa vez, os olhos de pupilas dilatadas são de mais um mero inocente que caiu no mundo sem ninguém para o erguer, enquanto os meus somente afectados pelas lágrimas de quem por momentos se viu ao espelho e encontrou num olhar dilatado e pouco orientado, as lembranças dolorosas de uma criança da época perdida no mundo das maravilhas para adultos.

10.15.2011

Small illusions, big disillusions


Ele saiu da minha vida, fechando a porta atrás de si.
Deixou-me caído no chão, alagado em lágrimas dolorosas que ferem os meus olhos como diluente sobre a pele áspera e gretada pela tristeza e pela mágoa.
Sinto um aperto no peito, que me impede de respirar calmamente, asfixiando-me como um véu de puro medo e pouca vontade de continuar o que tantas vezes foi construído e destruído.
Relembro as suas palavras, cruzadas com as minhas, gritadas e berradas, que circulam vivamente na minha mente, como um pequeno pássaro aprisionado numa minúscula gaiola.
Desfaz-se a magia, acaba-se a ilusão. O pano recolhe e o bom actor revela-se.
A desilusão apodera-se de mim, dominando-me como uma marioneta. Digo coisas que não queria, faço coisas que não faria. Sou um mero pedaço de vida apagada, dominado pela dor de um coração partido.  
O seu perfume ainda vagueia, entre o meu, avivando-me e relembrando-me dele, quando tanto faço para o expulsar, daquilo que ele nunca mereceu; o meu coração.
Procuro escapar de tudo, e pensar que está tudo bem, mas o meu corpo ainda o procura, como uma droga anestesiante que me faz novamente, acreditar nas ilusões de um futuro promissor, com toda a ingenuidade que sempre acreditei desde o começo, porque, só no final eu consegui entender, que tudo o que eu havia rotulado como perfeito, não passou de uma simples e pouco elaborada, ilusão dos meus olhos.  

10.09.2011

Two torn pages


As coisas mudaram. Novamente encontro a minha vida a dar cambalhotas na grama orvalhada da manhã fresca de Outubro. Parece que, como num dejavú, as coisas sempre se tornam iguais e têm obrigatoriamente, o mesmo final triste que tanto me magoa.
Sinto os olhos humedecidos, e aquela tão vulgar sensação de querer ouvir músicas tristes, e ficar no meu canto enrolado com a cabeça pousada nos joelhos, à espera que tudo passe. À espera que a tempestade se afaste e de novo os raios de luz trespassem as espessas nuvens cinzentas.
Quando tudo parece que vai ficar bem, sempre acaba por estalar o verniz e tudo desmorona na minha vida, como se o apocalipse atingisse o meu fraco e ingénuo coração.
Abafo-me nos cobertores quentes. Procuro conforto de quem não me dá.
Sinto o sal escorrer pelos olhos, enquanto leio, vezes sem conta, coisas bonitas que escrevi e decorei. Borro o carvão sobre o papel.
Dissolvo na tristeza os planos de uma vida perfeita. Apago o que restava dum coração sonhador com esperanças no amor porque agora eu sei que, venha quem vier, o final sempre será o mesmo, com mais ou menos, lágrimas escorridas no rosto e noites mal dormidas.

10.03.2011

Finding a bit of peace


Mergulho o pincel, ainda tingido de cinzento nas sardas espigadas e mal tratadas, levando um pouco de cor, ao que parecia triste e apagado.
Misturo, entre as linhas rabiscadas e os esboços borrados de carvão, uns quantos salpicos de vida, de felicidade e de sonhos, como quando, na mais densa escuridão da noite, se descobre, entre as nuvens chuvosas, algumas estrelas apagadas e abafadas pela espessa neblina que insiste, destruir o que de belo e mágico pode haver para dois olhos entristecidos contemplarem.
Deslizo entre o azul e o escarlate. O meu coração de novo palpita, os meus olhos novamente, tentam disfarçar o estranho brilho que os invade, que os toma, como um pedaço de pão quente, fumegante.
Deparo-me com o sorriso cravado no canto da boca, com as estranhas cócegas no estômago.
Um novo traço se adivinha, entre as linhas cinzentas, que a ninguém encantam.
Numa suave valsa, entre o pincel e a tela, entre o azul e o amarelo, pinto sentimento vividos, palavras beijadas e gestos petrificados, que sempre ficarão na minha mente, mesmo que, tal como o desenho rabiscado que sonha um dia ser quadro, tudo também não passe de ser somente, um doce sonho que eu sonhei. 

10.02.2011

October


Na rua, o vento forte alaga as ultimas folhas secas e com elas, percorre a rua. Embora o sol ainda brilhe, lá no alto, aos poucos, as coisas vão perdendo a sua magia e a sua cor, e claro, não falo somente da paisagem que se estende ao longo da janela.
Dentro de mim, uma mistura pouca homogénea de esperanças, sentimentos e inseguranças vagueia, como um cachorro perdido, sem um teto para se abrigar da chuva, e sem um osso para enganar o estômago, que aperta faminto, a cada nova pequena passada.
Faz algum tempo, a ultima vez que dei por mim, com o estúpido sorriso preso no rosto, cravado nos cantos da boca, acompanhado do brilhar confiante e desejoso nos olhos castanhos que agora, escondem a todo custo, o medo de uma desilusão.
Tenho medo de cair no vazio, de encontrar as páginas em branco no fim do conto de fadas. Eu simplesmente, não quero, nem estou preparado, para aguentar novamente um romance falhado porque, infelizmente, não é tão simples ao ponto do vento quente do Outono, levar consigo a tristeza que carrego, junto com as folhas secas, pela rua abaixo. 

9.16.2011

Memories for tomorrow


Desvaneço nos seus braços, dissolvendo-me na sua respiração. Torno-me o oxigénio dos seus pulmões, o pedaço de carne vulnerável que lhe sacia a fome e a droga que lhe corrói o espírito.
Rodeado pelos seus braços e consumido pelos seus beijos, subo ao paraíso, onde os olhares se dispersão nas nuvens de algodão, afastando-se e perdendo-se, dentro de sonhos apanhados, nos olhos brilhantes e apaixonados.
As suas mãos, um tanto ásperas, percorrem as minhas costas, conhecendo e explorando aquilo que o céu e as estrelas ocultavam e reservavam, como um caminho dos deuses, onde se cometia, secretamente, no mistério do silêncio abafados dos lábios dele fixados aos meus, o pecado da gula.
Abrem-se os portões do Olimpo, descai sobre o seu corpo trabalhado, o doce suor do desejo, carregando consigo a pesada sede de amor que, vagueava solitária à demasiado tempo na sua alma, roubando-lhe os sorrisos forçados e as lágrimas involuntárias, que, sem avisar, antigamente, à não muito tempo atrás, lhe escorriam dos olhos afundados de tristeza e falta de carinho, deslavando a sua máscara bem disposta.

9.06.2011

September


Abro a janela. O cheiro da terra molhada pela chuva invade os meus pulmões, espalhando a mágica fragrância pela sala. Setembro chegou. Cheira a manhãs de orvalho, cheira a uvas pintadas e a folhas caídas, abaladas pelo vento, até onde os olhos não conseguem ver mais.
O velho rádio, que pensava já não trabalhar, vibra agora ao som dos Queen, salpicando para o ar, parte do muito pó que se havia instalado nas suas colunas.
Novamente dou por mim a ouvir músicas alegres e românticas.
Dentro de mim, renasce das cinzas as esperanças de um futuro feliz, eliminando o projecto solidão ao qual me tinha associado à não muito tempo atrás.
Borboletas dançam no meu estômago, ao som de Love is my life. Um nervosismo percorre o meu corpo, descaído na varanda, enquanto os olhos afundados na estrada de alcatrão vazia, sonham com aquilo a que eu podia chamar, uma vida prefeita.
E sempre que recordo, aquela bendita tarde, encontrando as palavras doces circulam vivamente, como gaivotas, na minha mente adormecida pelo irritante vírus da paixão, que me estampa no rosto aquele sorriso parvo, que à tanto não encontrava em mim.

8.30.2011

Knowing how to choose


As túlipas da varanda balançaram sobre o vento da manhã de primavera, salpicado o pólen amarelado o piso ladrilhado, ainda um pouco húmido dos chuviscos da noite passada, que havia lavrado a estrada alcatroada com lágrimas dos anjos, e pintando o céu numa tonalidade cinzenta esbranquiçada, quando o sol despertara detrás das montanhas.
Ele parecia cansado, sentado na mesa da apertada sala de jantar, com o olhar preso na janela corrida, onde apenas os velhos telhados dos apartamentos da cidade eram vistos, com dois ou três pardais aos pulos, alimentando-se do musgo e dos insectos viscosos que cresciam no mesmo. Tinha á sua frente a sua caneca de café com leite, pintada de riscas azuis, brancas e amarelas, e também o jornal desdobrado, aberto na página dos classificados, onde havia rabiscado umas quantas esferas ovais, em torno de letras negritas a dizer ‘’ procura-se empregado ‘’.
Sobre os seus chinelos de quarto, dormia o seu pequeno gato, enrolado numa bola como um ouriço caixeiro, ronronando baixinho sempre que este roçava os seus pés descalços no pelo cinzento-escuro.
Docemente, sentira os dedos dela, entrelaçarem o seu cabelo castanho encaracolado, e quando, dos seus lábios, um sorriso espontâneo havia surgido, os lábios dela beijaram o seu rosto de feições cansadas e gastas pelo tempo, repleto de barba espessa e rija.
 Estava ainda de pijama, com o cabelo dourado despenteado. Cheirava agradavelmente a menta fresca, misturado com torradas quentes, barradas a manteiga.
Sentou-se ao seu lado, pendurando-se no seu ombro, como uma criança, para ver o jornal, enquanto entrelaçava os pés descalços nos dele, como se estivessem a criar uma ligação um ao outro, onde transmitiriam todos os sentimentos meigos e as esperanças vivas, do futuro que tinham para enfrentar juntos, à sua frente.

8.22.2011

Suicide


Sentou-se nas escadas da sua angústia, e deixou-se escorregar pelos degraus até mergulhar na escuridão que o esperava no fundo do caracol, com a boca aberta, prestes a cravar-lhe os dentes e a engoli-lo numa dentada.
Lá no fundo o ruído apagado dos gritos agoniados, esvoaçavam o vazio como harpias pairando sobre o céu morto e nu, como um tecido rasgado, caído sobre as costas despidas e molhadas, onde evidentemente se formavam pequenas e brancas, feitas de plumas e pedaços de algodão roubado das nuvens, asas angelicais, como as de um anjo amargurado, descaído pelas escadas da tortura, onde esperava perdido que alguém lhe estendesse uma mão e o levantasse da calçada orvalhada da chuva.
E não valia mais chorar, pois as suas lágrimas ecoavam como gotas de humidade, escorrida pelas estalagmites das grutas escuras e adormecidas, onde nem os morcegos se ouviam, porque, sempre que, cada pequena lágrima, cristalina como uma pérola, lhe escorregava pelo queixo, lá em baixo, no fim das infinitas escadas encaracoladas, a escuridão preparava-se para o devorar, bebendo a sua tristeza e comendo a sua angústia, como um carnívoro faminto, impaciente para ser saciado com o que restava duma pobre alma inofensiva.